Não precisa ser o primeiro
O Zero sentia-se vazio. Olhava para si mesmo e não gostava do que via: era aquela enorme barriga; era a incapacidade de sobressair; era a falta de um caráter vincado.
Achava mesmo que não valia nada. Já muitas vezes tentara ser
esguio como o 1, elegante como o 4 ou belo como o 7, mas nem sequer conseguia a
pequena proeza de esticar uma haste para se assemelhar ao 6 ou ao 9.
Era realmente uma nulidade. Mas o pior de tudo nem sequer era o
aspecto, pois já se tinha habituado a isso e os outros também nunca o tinham
visto de outra forma. Não, o pior nem era olhar-se ao espelho: o pior era
quando olhava para dentro de si mesmo. Não valia nada, pronto! Era isso. Nunca
tinha feito nada de que se pudesse realmente orgulhar; tinha as mãos vazias;
nunca deixaria o nome na história ou marcas no mundo. Não passava de um zero.
Mas, então, por que razão tinha consigo todos aqueles sonhos, aquele desejo de
grandeza, a vontade de se lançar a tarefas gigantescas? Era um zero e sentia
dentro de si uma enorme tendência para o infinito.
Ora, isso - pensava ele - não tinha lógica nenhuma. Era até
contraditório. E filosofava: Via-se logo que os números tinham sido uma
invenção dos homens. Por isso não batiam certo. Se tivessem sido obra de Deus,
tudo teria sido diferente. Sendo assim, paciência.
Mas o Zero estava de longe de se resignar com a situação. Alguma
coisa lá por dentro se recusava a aceitar pacificamente estas filosofias, ainda
que elas servissem perfeitamente como justificação para a sua nulidade e para a
vida preguiçosa que levava. E, no fim de contas, talvez os algarismos não
fossem uma invenção dos homens. Muitas vezes dizia para si mesmo que não podia
fugir à sua natureza, à incapacidade com que nascera.
Sentindo-se incapaz do esforço de alcançar o infinito, que chamava
por ele, repetia cinquenta vezes por dia que o infinito não existia. Para se
convencer a si próprio. Para se poder entregar tranquilamente à doçura de uma
vida sem montanhas para subir. No entanto, aquela doçura acabava por o maçar.
Tornava-se amarga: não na boca, mas num lugar qualquer que ele não sabia
identificar com exatidão. Ora, aquilo lhe doía muito. Era como se tomasse
veneno.
O Zero sabia a solução, a resposta, a verdade, mas fugia de pensar
nisso. Também lhe doía... O Zero sabia que o verdadeiro problema não era a
preguiça nem a falta de capacidade. A questão importante era o orgulho. Sucedia
que o orgulho o levava a procurar sempre o primeiro lugar quando se
juntava aos outros algarismos para fazerem alguma coisa em conjunto. Conseguia
esse lugar porque era o mais forte de todos, mas os outros algarismos não
achavam aquilo bem. E quando isso sucedia formava-se uma barreira, uma vírgula,
entre ele e os outros. E, assim, com o Zero no primeiro lugar e a vírgula logo
a seguir, aquilo que faziam não valia quase nada.
O Zero pressentia que, se aceitasse um dos últimos lugares, tudo
seria diferente. Talvez então pudessem, em conjunto, aproximar-se do infinito e
até tocar-lhe. Talvez assim se abrissem as portas a todos os sonhos que desde
sempre trouxera consigo. Mas teria - assim pensava - de se curvar perante os
outros, e baixar a cabeça era para ele uma impossibilidade. Mas o zero não
entendia que para ser forte, vitorioso e ocupar lugares de honra não
precisava ser o primeiro. Ele
precisa ser forte sendo o segundo, terceiro, quarto... e as vezes o melhor
lugar é o último. Ele entendeu que o primeiro número só era forte se a família
zero lhe auxiliasse.
PARA REFLETIR: A
glória de baixar a cabeça e se colocar no último posto faz a grandeza de um
homem. É que estas transformações são sempre muito íntimas e dolorosas, mas
vale a pena ser um zero, desde que seja sempre atrás daqueles que quer ser o
primeiro.
Abraços abençoados

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